Quando criança, eu me escondia atrás das pernas da minha mãe.
A minha mãe que é linda e vaidosa. Ficava observando a vida e as pessoas por detrás daquela barreira humana, me protegia dos olhares alheios ao mesmo tempo em que os buscava desesperadamente e era como um teste, uma experiência: quando é que algum desses olhares perdidos encontraria o meu?
Aquele era o meu lugar. Aquele me parecia o esconderijo mais óbvio, e ainda assim ninguém me encontrava.
Eu vi o que as pessoas faziam, testemunhei posturas, ações, atitudes, erros (eu buscava muito pelos "erros"), e me punha no lugar de cada personagem observado. Vibrava ao constatar que eu faria melhor. Invejava os que eu sabia que eram melhores e mais admiráveis do que eu, e admirava. Eu, por minha vez, quanto a mim, bem, eu, eu nunca fazia nada.
Como saber das minhas fraquezas, potenciais e capacidades através tão somente dos meus próprios olhos? Como saber que eu poderia ocupar aquele outro lugar sem que tivesse saído de onde estava? Sem ainda ter me livrado da barra da saia de mamãe?
E no entanto não admito que alguém, do contrário, ocupe esse lugar na minha vida. E não cabe a mim discorrer sobre o que era para a minha mãe ter esse lugar ocupado por mim.
Após uma adolescência, um amontoado de anos de revoltas e reviravoltas e revivals e remixes, claramente a repetição insiste e, para que permanecesse, sofreu adaptações. Não é isso o que dizem ser evolução? Continuo a ocupar traseiras de pernas e barras de saia. Pobres dos meus amigos.
Não me mostro totalmente (não quero revelar o que ainda não me foi revelado completamente) e não sou inteira se não tenho meu óbvio esconderijo por perto. Meus olhos procuram, ainda atônitos e dissimuladamente desesperados, por modelos de erros e acertos para que eu nunca perca, caso queira sair à revelia.
Meus olhos buscam por aquilo que eu acredito que ninguém vê. Há quem queira batizar isso de 'mistérios da noite' (no caso, eu). Que rosto há por trás daquela barba? O que ronda pelo interior daquele crânio revestido por esse longo cobertor capilar? O que temem esses olhos perdidos e obscurecidos pelo canto mais mal-iluminado da festa? Canto esse que também pode ser o esconderijo mais óbvio.
Meus olhos querem perceber as pernas que tampam esses sujeitos. Talvez eu queira ser a barra de saia que eles precisam; eu sei acobertar um grande potencial. Eu quero reconhecer o promissor.
Mas eu nunca fiz nada. E estou eu mesma acobertada por uma série de pernas, cabelos, barbas, olhos e saias e obscuridades.
Quando criança, numa festinha de aniversário da minha prima, um coleguinha dela levantou abruptamente a saia do meu vestido no meio do salão. Instintivamente eu o empurrei com tamanha brutalidade que o garoto caiu sentado e foi deslizando e derrubando as mesas e cadeiras de plástico em seu trajeto. Strike. Saí correndo para chorar no meu cantinho, lá atrás das pernas da minha mãe. Chorei de vergonha.
Pensei no ocorrido e constatei que pouquíssimas pessoas teriam visto a minha calcinha; porém, a festa toda parou para ver o estrago que eu fizera com o garoto e com a configuração do salão. Fechei os olhos e a vergonha se multiplicou inimaginavelmente, e me pus a chorar ainda mais forte e mais doído.
Há cerca de dois anos, numa viagem com a minha Cia., estávamos todos caminhando quando um dos meus companheiros subitamente levantou, mais uma vez, a saia do meu vestido ao atravessarmos a rua no centro da cidade.
Não fechei os olhos, não chorei, não empurrei ninguém, e minha reação foi uma previsível histeria raivosa que arrancou risos também histéricos dos meus colegas. Engoli o ódio, mas este entalou no meio da traqueia; fechei a cara (não os olhos) e pensei, pensei muito nos estragos que eu poderia causar. Não fiz nada.
Pelo visto, não estou protegida nem mesmo por debaixo da minha própria saia.
As barbas que momentaneamente possuo me ralam o rosto e me machucam com a aspereza.
Os olhos perdidos nunca me encontram até que eu pare de procurá-los com os meus.
Estou do outro lado do oceano e não tenho um esconderijo menor que esse apartamento, essa cidade e esse país.
Hoje me olho demasiadamente no espelho.
Não vejo pernas.
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sexta-feira, 8 de março de 2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
How It Would Be If It Was
You: How do you feel?
Me: Feel what? What am I supposed to feel?
You: You're alive, dear. You're expected to feel something, at least.
Me: Right. So what do you feel?
You: That wasn't my question.
Me: But it's mine.
You: You'll never tell me, will you?
Me: Never is a promise.
You: I feel I'm in love with you.
Me: I'm not feeling too bad.
Me: Feel what? What am I supposed to feel?
You: You're alive, dear. You're expected to feel something, at least.
Me: Right. So what do you feel?
You: That wasn't my question.
Me: But it's mine.
You: You'll never tell me, will you?
Me: Never is a promise.
You: I feel I'm in love with you.
Me: I'm not feeling too bad.
em relação a:
exorcismo,
machado e sândalo,
queijo e goiabada
terça-feira, 22 de maio de 2012
Eu queria demais lembrar quem era esse sujeito.
PROCURA-SE
aquele novo sorriso de dedos ágeis
afagáveis,
os olhinhos apertados de pouca barba,
a magreza simpática de cabelos em desordem.
não faço por inteiro
não obtenho o todo
optei involuntariamente pela caça às migalhas
pelas meias-palavras
por cabeças sem pés.
e se eu os posso completar
cabe ao meio saber.
06/10/2010
aquele novo sorriso de dedos ágeis
afagáveis,
os olhinhos apertados de pouca barba,
a magreza simpática de cabelos em desordem.
não faço por inteiro
não obtenho o todo
optei involuntariamente pela caça às migalhas
pelas meias-palavras
por cabeças sem pés.
e se eu os posso completar
cabe ao meio saber.
06/10/2010
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burrica,
descartáveis,
exorcismo,
machado e sândalo
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
(ingenerável)
É o mesmo velho mundo, mas nada parece igual...
Minha voz pode alcançar o Oceano Índico e atravessar a nebulosidade de um vulcão! What I'd say...
Sempre que... Espere.
Minha cabeça não para de girar... O universo respira contra meus olhos, e meu coração provavelmente está em um de meus sapatos. Nas minhas mãos secas estão as paredes e portas do corredor - chamativo chão, fugitivas chaves.
Sempre andando, nunca querendo chegar, eu derreto
Pudera, depois de ter perseguido todos os carros da cidade em um sábado desalmado, desbravei fantasmagoricamente mais de cento e vinte e quantos peitos, mas quem se arrisca num sábado desalmado tem o corpo fechado, inclusive eu, inclusive os vasos sanitários que se tornam velhos confidentes, inclusive os suportadores saltos altos, ah se eu pusesse as mãos neles, mas agora elas seguram paredes e portas, mas nunca maçanetas.
O universo respira em círculos desde quando resolvi guardar meu coração onde ninguém pudesse pisá-lo a não ser eu. E me pergunto se algum dia poderei sair desse transatlântico onde os lençóis são tão amarelos e oitentistas e o carpete cheira a soco inglês tão cinquentista e as pobres torneiras verdes tão setentistas... Ah, meu sofrimento... Tão... sessentista.
Bem, eu não preciso de ninguém, porque aprendi, eu aprendi a ficar só. E digo mais: não tenho culpa se os moinhos-de-vento e as retroescavadeiras acabam bravamente derrotados por mim...
Minha voz pode te deixar em carne viva! Viva a carne... A carne tão desalmada quanto um sábado. Um sábado desalmado onde cães e cuecas afiam as facas nos meus erros...
É o mesmo mundo igual, mas nada me parece velho oras aaaaaaaaaaaaaaaaaa
Tiro as paredes e portas das mãos para que caiba a minha cabeça giratória. Arranco o sapato do pé, respiro fundo, é agora, e digo: qualquer lugar em que eu puder encostar a cabeça eu vou chamar de casa.
Minha voz pode alcançar o Oceano Índico e atravessar a nebulosidade de um vulcão! What I'd say...
Sempre que... Espere.
Minha cabeça não para de girar... O universo respira contra meus olhos, e meu coração provavelmente está em um de meus sapatos. Nas minhas mãos secas estão as paredes e portas do corredor - chamativo chão, fugitivas chaves.
Sempre andando, nunca querendo chegar, eu derreto
Pudera, depois de ter perseguido todos os carros da cidade em um sábado desalmado, desbravei fantasmagoricamente mais de cento e vinte e quantos peitos, mas quem se arrisca num sábado desalmado tem o corpo fechado, inclusive eu, inclusive os vasos sanitários que se tornam velhos confidentes, inclusive os suportadores saltos altos, ah se eu pusesse as mãos neles, mas agora elas seguram paredes e portas, mas nunca maçanetas.
O universo respira em círculos desde quando resolvi guardar meu coração onde ninguém pudesse pisá-lo a não ser eu. E me pergunto se algum dia poderei sair desse transatlântico onde os lençóis são tão amarelos e oitentistas e o carpete cheira a soco inglês tão cinquentista e as pobres torneiras verdes tão setentistas... Ah, meu sofrimento... Tão... sessentista.
Bem, eu não preciso de ninguém, porque aprendi, eu aprendi a ficar só. E digo mais: não tenho culpa se os moinhos-de-vento e as retroescavadeiras acabam bravamente derrotados por mim...
Minha voz pode te deixar em carne viva! Viva a carne... A carne tão desalmada quanto um sábado. Um sábado desalmado onde cães e cuecas afiam as facas nos meus erros...
É o mesmo mundo igual, mas nada me parece velho oras aaaaaaaaaaaaaaaaaa
Tiro as paredes e portas das mãos para que caiba a minha cabeça giratória. Arranco o sapato do pé, respiro fundo, é agora, e digo: qualquer lugar em que eu puder encostar a cabeça eu vou chamar de casa.
em relação a:
exorcismo,
ferro e fogo,
pedradas,
queijo e goiabada,
tsunami
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
(este não é um título direcionador de olhares.)
- Olá, posso trabalhar no seu discurso?
- E quanto eu te pagaria?
- O suficiente pra que eu possa abandonar o remo e mergulhar nessa mentira.
- Tudo bem, mas eu não penso mais em você.
- E se você chorasse?
- Tampouco. Há reservatórios esperando pelo blues mais blue escorrer, e no entanto eu ainda não consegui parar de dançar.
- Nossa. Eu não esperava por isso; bastava uma resposta constrangedora...
- Para mim ou pra você?
- Tanto faz, contanto que alguém se machuque e vá logo pra casa.
- Fiz o melhor que pude.
- Você está sonhando...
- Isso eu não posso. Se ao menos meus sapatos parassem de dançar...
- Ai!
- O que foi?
- Um poema.
- E daí?
- Você não percebe? Eu acabo de pisar num poema amassado e...
- Sim, mas eu não pude imaginar o quanto isso seria pesado pra você.
- POR mim.
- Que seja. De qualquer maneira, me desculpe, mas o poema vai continuar aí. Não é meu.
- Não importa. A dor do tombo é maior do que a vontade de rir da testemunha. Vou embora.
- Não me surpreende.
- Não te previ.
- Não te interessa.
- Não me abandone.
- Não me subestime.
- Não me surpreenda.
- Não se esqueça.
- Não se interesse.
- Ok. Eu venci.
- Eu também.
- E quanto eu te pagaria?
- O suficiente pra que eu possa abandonar o remo e mergulhar nessa mentira.
- Tudo bem, mas eu não penso mais em você.
- E se você chorasse?
- Tampouco. Há reservatórios esperando pelo blues mais blue escorrer, e no entanto eu ainda não consegui parar de dançar.
- Nossa. Eu não esperava por isso; bastava uma resposta constrangedora...
- Para mim ou pra você?
- Tanto faz, contanto que alguém se machuque e vá logo pra casa.
- Fiz o melhor que pude.
- Você está sonhando...
- Isso eu não posso. Se ao menos meus sapatos parassem de dançar...
- Ai!
- O que foi?
- Um poema.
- E daí?
- Você não percebe? Eu acabo de pisar num poema amassado e...
- Sim, mas eu não pude imaginar o quanto isso seria pesado pra você.
- POR mim.
- Que seja. De qualquer maneira, me desculpe, mas o poema vai continuar aí. Não é meu.
- Não importa. A dor do tombo é maior do que a vontade de rir da testemunha. Vou embora.
- Não me surpreende.
- Não te previ.
- Não te interessa.
- Não me abandone.
- Não me subestime.
- Não me surpreenda.
- Não se esqueça.
- Não se interesse.
- Ok. Eu venci.
- Eu também.
em relação a:
estado de espírito,
exorcismo,
machado e sândalo
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Reminiscências: Pessoas e Lugares
BROOKLYN: ruas arborizadas. A ponte. Igrejas e cemitérios por todo lado. Além de lojas de doces. Um garotinho de idade ajuda um senhor a atravessar a rua. O velho sorri e esvazia seu cachimbo na cabeça do guri. O menino corre chorando para casa. (...) Um calor infernal desce sobre o bairro. Os cidadãos colocam as cadeiras na calçada e sentam-se para conversar. De repente, começa a nevar. NINGUÉM SE ENTENDE. Um vendedor ambulante oferece rosquinhas quentes. Soltam-lhe os cachorros em cima e ele é obrigado a refugiar-se numa árvore. Infelizmente para ele, há mais cachorros à sua espera no alto da árvore.
BAÍA DE SHEEPSHEAD: um pescador exibe, rindo orgulhosamente, a lagosta que acabou de capturar. A lagosta crava as garras em seu nariz. O pescador pára de rir. Seus amigos puxam-no para um lado, enquanto os amigos da lagosta puxam do outro. NINGUÉM SE ENTENDE. O sol se põe. Estão nisso até agora.
NEW ORLEANS: Uma banda de jazz toca um tristíssimo blues sob a chuva num cemitério local enquanto alguém é enterrado. Terminado o sepultamento, a banda passa a tocar hinos religiosos e começa a descer em direção à cidade. No meio do caminho, descobre-se que haviam enterrado o homem errado. E, o que é pior, um nem conhecia o outro. A pessoa que tinha sido enterrada não estava morta, sequer doente - na realidade, limitava-se a cantar junto com a multidão. Todos voltam ao cemitério e exumam o pobre homem, o qual ameaça processá-los, embora estes lhe prometam mandar o seu terno para a tinturaria e pagar a conta. Entrementes, ninguém sabe quem realmente morreu. A banda continua a tocar enquanto cada um dos presentes é enterrado de cada vez, na expectativa de que o morto será aquele que protestar menos. [NINGUÉM SE ENTENDE.] Logo se torna aparente que ninguém ali está morto, mas agora já é tarde demais para se conseguir um corpo devido à proximidade dos feriados.
Woody Allen
[Um beijo para Woody e as nossas vozes]
BAÍA DE SHEEPSHEAD: um pescador exibe, rindo orgulhosamente, a lagosta que acabou de capturar. A lagosta crava as garras em seu nariz. O pescador pára de rir. Seus amigos puxam-no para um lado, enquanto os amigos da lagosta puxam do outro. NINGUÉM SE ENTENDE. O sol se põe. Estão nisso até agora.
NEW ORLEANS: Uma banda de jazz toca um tristíssimo blues sob a chuva num cemitério local enquanto alguém é enterrado. Terminado o sepultamento, a banda passa a tocar hinos religiosos e começa a descer em direção à cidade. No meio do caminho, descobre-se que haviam enterrado o homem errado. E, o que é pior, um nem conhecia o outro. A pessoa que tinha sido enterrada não estava morta, sequer doente - na realidade, limitava-se a cantar junto com a multidão. Todos voltam ao cemitério e exumam o pobre homem, o qual ameaça processá-los, embora estes lhe prometam mandar o seu terno para a tinturaria e pagar a conta. Entrementes, ninguém sabe quem realmente morreu. A banda continua a tocar enquanto cada um dos presentes é enterrado de cada vez, na expectativa de que o morto será aquele que protestar menos. [NINGUÉM SE ENTENDE.] Logo se torna aparente que ninguém ali está morto, mas agora já é tarde demais para se conseguir um corpo devido à proximidade dos feriados.
Woody Allen
[Um beijo para Woody e as nossas vozes]
em relação a:
com textos,
estado de espírito,
exorcismo,
tsunami
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Cruelmente
Eu não estava nua, mas ao me ver sem escudo ele disse:
- Pare de me olhar com essa cara de rua molhada.
Não havia objeção para uma feição de rua molhada, então eu o fitei só por mais alguns momentos, que eram os que me cabiam. Não havia também cabimento para olhares desnudos além da sacada naquela noite muda. Expressões também se fazem em ossos e terminações nervosas.
Fiquei nervosa e parei um segundo para analisar o meu estado: ele analisava o asfalto brilhante diante da eletricidade que se desfazia em fios e virava lâmpada em poste. Dentro e fora eram nossos estados, portanto.
Ele descobriu o meu pensamento sem lençóis e disse:
- Que poética mais insolente a sua.
Ele não me destruiu mas arrancou sem dentes, lábios ou língua um beijo de dentro do meu ventre-cérebro, e senti uma dor pouco pungente.
- Eu nunca te disse... , eu disse.
Mas ele não ouviu e continuou brincando de rir dos meus pés despreparados para correr.
E então eu parei de auscultar ele pois cada ladrilho da sacada chuvosa emitia uma frase diferente sobre como eu deveria proceder, e num ímpeto de revolta crua eu apaguei o cigarro sobre aquele um que me dizia "descrave as unhas do passado".
Ele disse:
- Meu pé era o debaixo.
Mas eu não o ouvi, e num relance eu o fitei e ele virou pingo d'água de rua molhada no asfalto poético e insolente. Eu disse.
- Pare de me olhar com essa cara de rua molhada.
Não havia objeção para uma feição de rua molhada, então eu o fitei só por mais alguns momentos, que eram os que me cabiam. Não havia também cabimento para olhares desnudos além da sacada naquela noite muda. Expressões também se fazem em ossos e terminações nervosas.
Fiquei nervosa e parei um segundo para analisar o meu estado: ele analisava o asfalto brilhante diante da eletricidade que se desfazia em fios e virava lâmpada em poste. Dentro e fora eram nossos estados, portanto.
Ele descobriu o meu pensamento sem lençóis e disse:
- Que poética mais insolente a sua.
Ele não me destruiu mas arrancou sem dentes, lábios ou língua um beijo de dentro do meu ventre-cérebro, e senti uma dor pouco pungente.
- Eu nunca te disse... , eu disse.
Mas ele não ouviu e continuou brincando de rir dos meus pés despreparados para correr.
E então eu parei de auscultar ele pois cada ladrilho da sacada chuvosa emitia uma frase diferente sobre como eu deveria proceder, e num ímpeto de revolta crua eu apaguei o cigarro sobre aquele um que me dizia "descrave as unhas do passado".
Ele disse:
- Meu pé era o debaixo.
Mas eu não o ouvi, e num relance eu o fitei e ele virou pingo d'água de rua molhada no asfalto poético e insolente. Eu disse.
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